A nova tarifa de 25% imposta pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros agravou a crise enfrentada pelos produtores de uva do Vale do São Francisco, localizado na divisa entre os Estados de Pernambuco e Bahia, ao longo das margens do Rio São Francisco. Somada a uma cobrança anterior de 12,5%, relacionada às regras de importação contestadas pelo Brasil, a tributação sobre a fruta chega agora a 37,5%.
Essa medida agrava uma tendência de queda nas exportações de uva do Vale do São Francisco, observada desde o segundo semestre de 2025. Embora os EUA continuem entre os principais destinos da uva produzida na região, os embarques diminuíram de forma acelerada nos últimos dois anos.
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Segundo Jailson Lira de Paiva, presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina e dirigente de uma cooperativa de produtores, o impacto já aparece nos números das exportações.
Em 2024, o Vale do São Francisco enviou 971 contêineres de uva aos EUA. Em 2025, o volume caiu para 327. Até o segundo semestre deste ano, apenas 28 contêineres chegaram ao mercado norte-americano, redução de aproximadamente 75% em relação ao mesmo período dos anos anteriores.
Apesar da queda, o mercado dos EUA continua estratégico. Atualmente, responde por cerca de 25% das exportações da região e costuma oferecer preços superiores aos praticados na Europa.
Produtores tentam preservar mercado norte-americano
O custo de produção de um hectare de uva destinada à exportação varia entre R$ 100 mil e R$ 150 mil por safra. Com a nova sobretaxa, produtores estimam perdas entre 35% e 45% da receita esperada.
Para Jailson, abandonar o mercado norte-americano não é uma alternativa. “Se a gente colocar toda essa fruta em outro mercado, corre o risco de provocar um colapso, como aconteceu no ano passado”, disse. “Os compradores perceberam o aumento da oferta e passaram a pagar menos pela fruta.”
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Segundo o dirigente, a estratégia será negociar diretamente com os importadores norte-americanos para dividir parte do impacto da tarifa: “Os clientes norte-americanos que aceitarem compartilhar uma parte desse imposto serão muito bem-vindos”.
O presidente do sindicato explica que o planejamento da safra vai depender da demanda nos EUA entre setembro e dezembro. Caso a produção norte-americana termine antes do previsto, o mercado poderá voltar a importar maiores volumes da fruta brasileira.
Setor evita demissões, mas cenário preocupa
O Vale do São Francisco emprega aproximadamente 120 mil trabalhadores na cadeia produtiva da uva. Mesmo com a perda de mercado, produtores afirmam que não pretendem reduzir o quadro de funcionários neste momento.
“A fruta não permite mudar a estratégia de uma hora para outra”, explica Jailson. “Não dá para demitir pessoas e imaginar que tudo ficará resolvido.”
A região possui cerca de 16 mil hectares cultivados com uva de mesa, dos quais aproximadamente 90% produzem duas safras por ano. Dados da Pesquisa Agrícola Municipal do IBGE, compilados pela Embrapa, mostram que a área plantada chegou a 18 mil hectares em 2024, praticamente o dobro da registrada dez anos antes.
Os desafios da produção de uva
Os produtores estudam ampliar as vendas para o Canadá, a Europa e a Argentina. A Ásia, porém, praticamente está descartada. O transporte marítimo leva entre 38 e 40 dias, prazo considerado incompatível com a vida útil da fruta.
Jailson também avalia que o posicionamento do governo federal nas negociações comerciais não favoreceu o setor. Segundo ele, a taxa adicional de 12,5% relacionada a suposto trabalho forçado não reflete a realidade da produção brasileira: “A gente não tem isso aqui”.
Caso o Brasil perca espaço de forma definitiva nos EUA, produtores avaliam que concorrentes como Peru e Chile tendem a ampliar sua participação naquele mercado, ocupando um espaço que hoje pertence à uva produzida no Vale do São Francisco.
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