Uma blitz da lei seca surge, inesperadamente, na estrada imaginária que liga Brasília a lugar nenhum. Os agentes instalam as barricadas, erguem os balões chamativos no acostamento e munem-se do bafômetro, à espera do primeiro veículo. À vista dele, fazem o tradicional gesto de mandar parar. “Esta é uma blitz da lei seca. Faça o favor de descer do veículo, cidadão.”
O primeiro a descer tem pinta de jagunço de algum figurão. Sai com a cara amarrada e a mão já exibindo o distintivo, dando a famosa carteirada: “Sabe com quem está falando?” O agente da lei seca não se intimida e dá continuidade ao procedimento de praxe. “Sr. Andrei, o senhor bebeu?”. O outro resmunga: “Quase nada”. Mostram-lhe o bafômetro ou a suspensão da carteira como alternativa. Ele opta pelo primeiro. “0,5 mg/L, senhor Andrei. Isso é crime de trânsito. O senhor será conduzido à delegacia.”
Enquanto arrastam o sabujo esperneante até a viatura, um agente sussurra a outro: “Isso aí é uísque. E do puro. Macallan. Parece que virou tendência por estas bandas”.
Mais adiante, um veículo mais luxuoso que o primeiro. O procedimento é o mesmo. O Sr. Benedito sai do carro vociferando, sacolejando no ar, prenhe de indignação, o seu relógio da marca Richard Mille RM-011 no valor de € 200 mil (R$ 1 milhão), e suas pulseiras das joalherias Cartier e Van Cleef. O agente já está acostumado com esses chiliques do poder. “O bafômetro ou a suspensão da carteira?”. A escolha foi a mesma que a do camarada anterior. “Deu 0,8 mg/L. Favor entrar tranquilamente na viatura”.
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Mais escândalo inútil. “Macallan também”. “Esse aí tomou um golinho a mais que o outro” — comentam os parceiros de blitz.
O terceiro veículo é abordado e tudo se repete, com exceção da quantidade de álcool. Dessa vez, o bafômetro indicou 1 mg/L. Os agentes não compreendiam como o Sr. Ricardo conseguia manter-se de pé. “Macallan?” O outro agente só riu, assentindo com a cabeça.
A blitz continua
Do quarto veículo salta o Sr. Paulo, de óculos de aro redondo, nariz adunco e uma boca de cantos retorcidos para baixo. “1,2 mg/L, Sr. Paulo. Deseja uma água?” E lá vai o velho procurador para a delegacia. “Já sei. Puro malte”. E os dois colegas de farda riem, riem…
O quinto carro chega trazendo duas personalidades: um barbudinho; o outro, calvo. O primeiro, 1,5 mg/L. O segundo — os dois agentes quase caem para trás — nada menos que 2 mg/L. “Sr. Alexandre, foi a garrafa inteira de Macallan?”. O calvo espumava e nada dizia. Com voz pastosa e arrastada, o barbudinho urrava. Apontando o dedo para o Sr. Alexandre, aspergiu perdigotos no rosto do agente: “Foi ele quem me convidou. Foi ele quem me convidou”. Ambos para a delegacia.
Já era tarde, e os dois agentes julgaram ser a hora de encerrar o expediente. Antes que começassem a desmontar o aparato fiscalizador, vislumbraram a passagem de um último carro. Deram ordem para encostar. O motorista abriu a janela e mostrou a habilitação e o documento do veículo. “Nem precisa descer do carro, Sr. André” – disseram os guardas aliviados. “Pelo seu ‘boa noite’, já constatamos a completa ausência de hálito de Macallan”. André sorriu e respondeu: “É que sou evangélico”. Os guardas devolveram o sorriso simpático: “Está liberado, Sr. André. Boa viagem e vá com Deus!”
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