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Trump pode declarar vitória sobre o Irã sem obter acordo nuclear

Trump pode declarar vitória sobre o Irã sem obter acordo nuclear

Brasil Estado | 09/08/2026 às 18:15 | há 2 meses | 6 min de leitura

A reabertura do Estreito de Ormuz pode se transformar na principal condição para Donald Trump proclamar vitória sobre o Irã. O presidente norte-americano admitiu, segundo autoridades ouvidas pelo The Wall Street Journal, abandonar a tentativa de alcançar um novo acordo nuclear e apresentar como resultado da guerra o restabelecimento do tráfego marítimo na estratégica passagem.

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O problema é que Teerã elevou consideravelmente o preço para permitir a retomada da navegação. O início dos bombardeios norte-americanos, realizados entre fevereiro e abril deste ano, ao lado de forças israelenses, teve como objetivo, de acordo com declarações na época, desmantelar qualquer iniciativa iraniana de desenvolver armas nucleares.

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Entre as condições apresentadas pelo governo iraniano estão o pagamento de bilhões de dólares pelos EUA, a retirada das tropas americanas do Oriente Médio e o encerramento do bloqueio naval imposto por Washington. O Irã também quer impedir que navios militares norte-americanos atravessem o estreito e pretende obter receitas das embarcações comerciais que utilizam a rota.

As exigências complicam a estratégia de Trump para construir uma narrativa de vitória. O presidente dos EUA já ameaçou ampliar drasticamente a ofensiva militar contra o Irã, mas recuou em algumas ocasiões. Ele busca apresentar resultados concretos justamente quando se aproximam as eleições de meio de mandato.

Para Mona Yacoubian, diretora e assessora sênior do Programa para o Oriente Médio do Center for Strategic and International Studies, as novas condições apresentadas por Teerã tornam mais difícil para Trump encontrar uma saída que lhe permita preservar sua imagem política.

A questão nuclear dominou as conversas entre Washington e Teerã desde abril. Trump queria que qualquer entendimento incluísse garantias de que o Irã jamais teria uma arma nuclear. As negociações, porém, avançaram pouco.

Diante do impasse, a Casa Branca passou a concentrar parte de seus esforços em uma questão mais imediata: a circulação de navios pelo Estreito de Ormuz.

A passagem é uma das principais rotas para o transporte mundial de petróleo. O fechamento da via pelo Irã, no início da guerra, provocou interrupções no comércio marítimo e aumentou a pressão sobre os mercados internacionais de energia.

Teerã transformou o controle sobre o estreito em um instrumento de pressão contra os Estados Unidos. Mísseis e drones podem ser utilizados para ameaçar embarcações, enquanto minas navais representam outro risco para a navegação.

A disputa ocorre em um momento politicamente delicado para Trump. Faltam menos de três meses para as eleições legislativas de meio de mandato, e os preços dos combustíveis continuam acima dos níveis registrados antes do início da guerra, no fim de fevereiro.

O presidente, portanto, precisa demonstrar aos eleitores que o conflito produziu resultados concretos.

Nos últimos dias, Trump afirmou que chegou a considerar o que classificou como o maior ataque militar norte-americano desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), mas que aliados dos Estados Unidos o convenceram a desistir da operação. Também continuou dizendo que um acordo com o Irã estaria próximo.

Na sexta-feira 7, foi além. Trump compartilhou nas redes sociais um artigo cujo título afirmava que ele havia vencido a guerra contra o Irã, apesar de ainda não existir um acordo nuclear. A reabertura do estreito está diretamente ligada à presença militar dos EUA na região.

O governo iraniano quer que navios de guerra americanos sejam impedidos de utilizar a passagem e pretende cobrar das embarcações comerciais que atravessem a área. Washington rejeita as duas condições.

A situação ficou ainda mais tensa no fim de semana. Os Emirados Árabes Unidos acusaram o Irã de lançar um míssil contra uma de suas embarcações. Ao mesmo tempo, um alto funcionário iraniano apresentou novas condições para que o tráfego marítimo seja normalizado.

A Casa Branca afirma, entretanto, que os principais objetivos militares americanos já foram alcançados. Segundo um funcionário do governo, a prioridade agora é restabelecer o fluxo internacional de energia pelo estreito, sem abandonar a possibilidade de novos ataques caso o Irã volte a atingir navios.

Nesse cenário, Trump poderia considerar suficiente a combinação entre a reabertura de Ormuz e a contenção do programa nuclear iraniano para declarar que os EUA venceram o conflito.

Trump avalia situação no Irã

O presidente também parece considerar que a questão nuclear perdeu parte de sua urgência depois dos ataques contra três importantes instalações nucleares iranianas no ano passado.

Segundo autoridades norte-americanas citadas pelo jornal , Trump disse a assessores que acredita que o Irã não terá condições de reconstruir seu programa nuclear durante seu mandato.

Leia mais: "Irã utiliza guerra e isolamento para aumentar a repressão interna"

A avaliação do presidente é baseada, em parte, na capacidade de inteligência dos EUA. Qualquer tentativa de reconstruir as instalações destruídas ou desenvolver clandestinamente uma arma nuclear, segundo essa visão, poderia ser identificada pelos serviços norte-americanos.

Trump também considera que a possibilidade de novos ataques dos EUA funcionaria como fator de dissuasão. Se essa estratégia funcionar e o tráfego pelo Estreito de Ormuz voltar ao normal, o presidente poderá manter o atual cessar-fogo por tempo indeterminado. Nesse caso, também poderá suspender o bloqueio militar americano aos portos iranianos.

A questão financeira, porém, pode ser tão difícil de resolver quanto a nuclear. Teerã quer receber bilhões de dólares como compensação pelos prejuízos provocados pela guerra. Também exige o desbloqueio de ativos iranianos congelados em outros países.

Trump já afirmou que não permitirá o uso de dinheiro dos contribuintes de seu país para financiar o Irã. Mesmo assim, um eventual entendimento pode exigir algum mecanismo para liberar parte dos recursos iranianos congelados no exterior.

Outro ponto sensível é o petróleo. O Irã quer voltar a vender sua produção livremente no mercado internacional, enquanto Washington discute a possibilidade de conceder novas isenções às sanções.

Uma autorização semelhante havia sido incluída em um memorando provisório firmado em junho. O entendimento, porém, desmoronou depois de ataques iranianos contra navios no estreito, levando os Estados Unidos a restabelecer as restrições ao petróleo iraniano.

Trump passou, nas últimas declarações, a sinalizar uma disposição maior para apresentar o conflito como uma vitória norte-americana. Na quinta-feira 6, afirmou que o bloqueio americano aos portos iranianos fazia com que o Estreito de Ormuz estivesse "meio aberto" naquele momento. Ao mesmo tempo, reconheceu que o Irã ainda poderia atacar embarcações com drones, mísseis ou minas.

O presidente também minimizou a importância do estoque de urânio mantido pelo Irã em instalações subterrâneas. A estratégia de Trump, portanto, pode não depender da obtenção do acordo nuclear que originalmente pretendia.

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