Relatórios do Ministério Público de São Paulo (MPSP) que embasaram a Operação Janus, deflagrada nesta terça-feira, 21, apontam que três coronéis da Polícia Militar (PM) aparecem em documentos relacionados à investigação sobre um esquema de lavagem de dinheiro em favor do Primeiro Comando da Capital (PCC).
O inquérito apura a atuação de operadores financeiros suspeitos de movimentar recursos ilícitos da facção e de manter influência sobre agentes públicos.
Entre os nomes citados estão o ex-comandante-geral da PM, coronel José Augusto Coutinho, o coronel Luiz Carlos Pereira Martins e um oficial identificado apenas como "Patrício". De acordo com a decisão judicial, nenhum deles é alvo de busca, prisão ou investigação, já que a apuração mira o núcleo financeiro da organização criminosa.
Mensagens e planilhas fazem parte das provas relacionadas aos membros do PCC
De acordo com a Promotoria, Pereira Martins participava de um grupo de WhatsApp chamado "Aniversário general", ativo ao menos até 21 de novembro de 2023, o qual participavam investigados por suspeita de lavar dinheiro para o PCC.
O grupo reunia Pereira Martins e o "companheiro" do PCC Cléber Azevedo dos Santos. Conforme a investigação do MPSP, as mensagens trocadas no grupo tinham "caráter pessoal e social, com referências a eventos e celebrações".
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Os promotores consideram que as conversas, a despeito do tom mais pessoal, demonstram uma relação de proximidade entre o coronel e os suspeitos. A investigação também mostra que o oficial teria se colocado à disposição para intermediar contatos com autoridades.
Já o ex-comandante-geral José Augusto Coutinho é mencionado em conversas que envolvem operadores financeiros investigados. O coronel "Patrício" aparece em planilhas apreendidas durante as investigações.
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A defesa de Coutinho afirmou que ainda não teve acesso aos autos. De acordo com os advogados, o oficial "sempre exerceu suas funções com integridade".
Em nota à reportagem, a PM paulista afirmou que participou da deflagração da Operação Janus e reiterou seu compromisso com o enfrentamento qualificado ao crime organizado, "em estreita cooperação com o Ministério Público e o Poder Judiciário".
Banco paralelo do PCC é alvo de operação
A Justiça expediu 18 mandados de prisão preventiva e 18 de busca e apreensão contra investigados apontados como responsáveis por ocultar e movimentar recursos da facção.
Também foram determinadas medidas de bloqueio patrimonial que podem alcançar até R$ 10 milhões por investigado. A ofensiva é coordenada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e representa um desdobramento das operações Bazaar, Recidere e Salus et Dignitas.
Segundo o MPSP, a principal linha de investigação mostra que o grupo operava uma espécie de "banco paralelo" a serviço do PCC.
De acordo com os promotores, os operadores financeiros recebiam grandes quantias em dinheiro vivo e reinseriam os valores no sistema financeiro por meio de transferências eletrônicas realizadas por empresas de fachada e contas de terceiros.
A investigação identificou "operações envolvendo entrega de numerário em espécie, transferências bancárias, utilização de empresas e contas de terceiros e movimentação de recursos em benefício de integrantes e colaboradores da facção".
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Entre os principais beneficiários da estrutura, conforme o MPSP, está Leonardo Monteiro Moja, conhecido como Léo do Moja ou Léo do Moinho, apontado como uma das principais lideranças do PCC em São Paulo. Segundo a investigação, ele utilizava os operadores para adquirir bens sem vincular seu nome às negociações e justificar a posse de grandes quantias em espécie.
Operadores do PCC atuavam em "tribunais do crime"
As investigações também revelam que a estrutura financeira não se limitava à lavagem de dinheiro. Segundo o Gaeco, os operadores participaram de reuniões promovidas pela facção para solucionar conflitos patrimoniais, conhecidas como "tribunais do crime".
Um dos episódios apurados envolve uma disputa por imóveis de alto padrão na Riviera de São Lourenço, em Bertioga, no litoral paulista. Conforme os investigadores, os operadores recorreram ao PCC para intermediar a resolução do conflito.
Além das prisões e das buscas, a Justiça determinou o bloqueio de contas bancárias, aplicações financeiras, imóveis e veículos, além do sequestro de bens atribuídos aos investigados.
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