Lembro-me de, certa vez, estar em uma van circular da minha cidade natal, em São José dos Campos (SP), eu e uma ex-namorada voltávamos de um grupo de oração do centro da cidade. O motorista vinha em sua rota numa velocidade descabida, freando para semáforos e radares, mas para todo resto só existia o pedal do acelerador. Olhando para os lados, do cobrador aos demais passageiros, rostos assustados compartilhavam mudamente o mesmo medo e protesto que eu e minha ex.
Ao sairmos da van do Toretto — ilesos graças a Deus —, disse ao motorista algo como: “Lembre-se de que o senhor está levando pessoas e não batatas. Vou reclamar na prefeitura, já anotei sua placa”. Ao que ele respondeu com um sorriso irônico seguido de um movimento de mão ao seu ajudante para que fechasse logo a porta. Mas, antes disso, seus gestos se verteram em uma espécie de espanto à minha censura quando outros passageiros de dentro do veículo apoiaram minha fala, sua fisionomia misturou uma espécie de pedido de desculpa e calma artificial. Acreditem ou não, mais à frente, na avenida, ele bateu na traseira de um carro azarado qualquer. Provavelmente não estava puro o rapaz. Desde então, quando entro num ônibus ou avião, costumo reparar nos indicativos de saúde mental e sobriedade dos pilotos. É instintivo, não me julguem mal.
Acredito que tal instinto pode, por vezes, soar como exagero. Porém, há benefícios, como o de não se deixar enganar facilmente, ou o de se preparar para o pior em situações nas quais a maioria estaria alheia ou distraída. Um instinto parecido eu adquiri no debate público com relação ao cinismo de comentaristas. Afinal, quando se está cercado por pessoas que supostamente defendem os direitos humanos, mas louvam o Hamas, ou que choram os males do fascismo, mas têm orgasmos incontidos com as memórias do sovietismo, a gente então acaba aprendendo a reconhecer padrões no falso moralismo "progressista".
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É nessa toada que não poucos fervorosos defensores dos direitos dos penitenciários aplaudem as recentes medidas de exceção a Bolsonaro. Não cairei na armadilha óbvia de comparar Lula a Bolsonaro, por muitos motivos, mas o mais óbvio deles é que, para os que já entenderam como funcionam as leis no Brasil, sabe muito bem que quem está do lado certo tudo pode. Parece simplificação, e eu mesmo já fui daqueles que recusou essas explicações, buscando uma lógica jurídica nas decisões do Supremo, uma sombra de equidade nos tratos. Mas deixei de ser trouxa quando uma mulher que passou batom numa estátua foi sentenciada com uma pena maior do que recebem inúmeros traficantes e filiados do PCC. Desde então, notei que, não raro, as explicações mais simples são, de fato, as que contêm mais verdades.
Cinismo e justificativas sem sentido
O que quero analisar, antes, é o cinismo dos não poucos que apoiam e justificam as medidas incabíveis do nosso STF. E o caso da carta, que agora é o centro do debate, não é nem meu foco específico aqui, ele somente explora mais um dos focos desse tipo cinismo que denuncio.
Aliás, desta vez, e somente desta vez, não nominarei os comentaristas a que faço referência indiretamente, pois são muitos, e, em certa medida, cada um justifica e apoia as medidas de Alexandre de muitas formas. Dar seus nomes aqui exigiria ampliar a análise crítica do meu texto a um tamanho inviável para este espaço. Além de que, meu advogado, homem prudente e atento, disse que “cinismo” pode ser um adjetivo que gere processos. Então desculpem-me, caros leitores, ainda estou pagando meu HB20.
"O cinismo exige um esforço retórico significativo das pessoas para que encontrem coerência no que é essencialmente arbitrário"
Pois bem, “cinismo”, no sentido popular contemporâneo — e não no filosófico clássico —, é uma atitude que demonstra falta de vergonha e respeito às normas morais, uma atitude geralmente envolta em hipocrisia e sarcasmo. Percebam, então, que o cinismo exige um esforço retórico significativo das pessoas para que encontrem coerência no que é essencialmente arbitrário.
O que me recorda o personagem “Homem Completo”, de Amos Tutuola, no clássico surrealista O Bebedor de Vinho de Palma. Nele, o tal Homem Completo — bonito e bem-formado exteriormente — é, na realidade, um conjunto pedaços corporais alheios que envolve um ser amorfo cuja a aparência original é descrita apenas como um “crânio descarnado”. Parece-me que os comentaristas cínicos se revestem exatamente dessas “pedaços perfeitos” para dar a impressão de uma coerência externa. Foi dessa forma que o motorista da van, ao ser descoberto em seu descompasso imprudente, em sua antiética profissional, como forma de disfarçar ou demonstrar superioridade, ofereceu apenas um sorriso e altivez como resposta ao desvelamento de seu caráter.
Comentaristas expostos
Da mesma forma, quando tais jornalistas e comentaristas são expostos e retrucados em suas desarmonias, logo mostram seus belos anseios morais e os crachás de especialista como forma de justificativa para as conclusões evidentemente incoerentes frente ao que pregam. E assim, tais especialistas, ardilosos defensores da justiça social, da cintura para cima defendem a dignidade e o respeito às mínimas garantias de um preso, e, da cintura para baixo, encontram na proibição do preso encontrar-se com seu filho, ou de escrever uma carta para o público externo, algo normal e sem incongruências.
"Cabe-nos criar um instinto para reconhecer tais padrões de incoerência, notar que talvez algumas feições e discursos realmente não combinam com os gestos subsequentes"
No país em que assassinos têm direitos a trepadas assistidas pelo Estado, salários mínimos pelo benefício de estarem presos, e, à revelia da narrativa jurídica, não raro têm celulares e televisões em suas celas, para os Homens Completos, a carta de Bolsonaro ao seu público é algo completamente perigoso e indefensável.
Cabe, então, reconhecermos esses tais Homens Completos — cujo nome, em si, já é cínico. Cabe-nos criar um instinto para reconhecer tais padrões de incoerência, notar que talvez algumas feições e discursos realmente não combinam com os gestos subsequentes, que algumas ideias não culminam nas práticas que elas próprias defendem, que, por fim, as aparências belas e justificadas de um ato, no fim, escondem muitos crânios descarnados.
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