Ouvimos muito que a melhor forma de praticar a medicina é aquela baseada em evidências. Mas o que, afinal, é medicina baseada em evidências? Você acha que um tratamento com "evidência de alta certeza de benefício" significa um benefício grande para aquela doença? Não. E quando "não tem evidência", quer dizer que tem pouca chance de causar um grande benefício? Também não. Ausência de evidência não é evidência de ausência.
Para entender, vamos começar com a história de um dos principais tratamentos para uma doença que afeta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo. Nos anos 1950, os primeiros antidepressivos foram descobertos. Com o passar dos anos, cada vez mais pacientes em uso de antidepressivos começaram a relatar melhora de uma outra doença: enxaqueca. Coincidência? Os médicos prescreveram, para testar, o antidepressivo a quem tinha enxaqueca, mas não depressão.
Os pacientes melhoraram. Desde então, no mundo inteiro, tem se prescrito este antidepressivo pioneiro — a amitriptilina — em clínicas de cefaleia. Mas, em agosto de 2026, uma diretriz baseada em revisão sistemática publicada pela American Academy of Neurology (AAN) e American Headache Society (AHS) revelou que a amitriptilina tem baixa evidência para o tratamento de enxaqueca.
Baixa evidência? Como isso justifica o uso desse fármaco como um dos principais e mais prescritos tratamentos preventivos de enxaqueca ao longo de 5 décadas? As pesquisas que avaliam um tratamento podem ter diferentes graus de rigor e qualidade. Um estudo pode encontrar grande melhora, mas ter limitações que nos deixem em dúvida quanto a esse resultado. Outros estudos podem nos dar o grau de certeza de que algum benefício, grande ou pequeno, existe.
Os testes com a amitriptilina
No caso da amitriptilina, a revisão dos estudos feita pela AAN e AHS encontrou benefício na redução dos dias de dor de cabeça, mas classificou como baixa a certeza da evidência para esse resultado. Na prática, isso significa que pesquisas melhores precisam ser realizadas para confirmar, refinar ou mudar a estimativa de quanto ela ajuda. A experiência clínica de décadas e os estudos disponíveis, ainda que imperfeitos, apontam na mesma direção: há benefício na enxaqueca, mas a qualidade dos estudos deixa incerteza sobre quanto benefício, em quem ajuda e em comparação com o quê.
E o que impede que esses estudos aconteçam? Custos. Um único ensaio clínico de boa qualidade, envolvendo vários centros (multicêntrico) e centenas de pacientes, custa dezenas de milhões de dólares. Um medicamento novo, protegido por patente, recupera esse investimento com sua comercialização.
Já para um medicamento antigo e disponível como genérico, a situação é diferente. O incentivo para uma empresa farmacêutica financiar a pesquisa diminui, pois os resultados irão favorecer as vendas dos concorrentes, que, se tiverem melhor estratégia de marketing, poderão vender mais que o próprio financiador. Universidades, governos e instituições filantrópicas podem financiar esses estudos, mas seus recursos são limitados e disputados por muitas outras necessidades e prioridades.
Outro problema: dizer que “tal remédio tem alto grau de evidência para enxaqueca” é incompleto, pois omite a que essa evidência se refere. Por exemplo, um remédio pode mostrar, em estudos clínicos multicêntricos de boa qualidade, evidência de alta confiança para um benefício muito pequeno.
Medicina baseada em evidências
Vamos dizer que se comprovou, com alto grau de confiança, que numa população que sofre de 20 ou mais dias de dor de cabeça por mês, um remédio consegue reduzir a frequência em um dia por mês, comparado a um placebo (comprimido inerte sem qualquer princípio ativo) que não reduz a dor em nada. Esse remédio possui, sim, evidência com alto grau de certeza no tratamento da enxaqueca. Mas para que aspecto exatamente? Redução da frequência da dor em apenas um dia para quem tem 20 ou mais dias de dor por mês.
A evidência existe. A certeza da evidência de benefício é alta. Mas o tamanho do benefício não. E finalmente, como evitar o mal-entendido da “medicina baseada em evidências”?
Antes de mais nada, é preciso distinguir entre o método e o “rótulo”. Nas mãos de um médico com conhecimento, experiência clínica e bom senso, a medicina baseada em evidências examina várias questões ligadas à escolha do melhor tratamento, e integra os achados dos estudos com a expertise clínica e, sim, as preferências do paciente. Ela pode até resultar numa recomendação do médico contra um tratamento, mesmo havendo evidência de alta certeza de benefício.
Minha crítica identifica o que acontece quando “medicina baseada em evidências” se torna um “selo de aprovação” que substitui essas considerações. O rótulo não deve substituir o raciocínio e o bom senso.
Como viver melhor
Escrevo tudo isso porque é daqui que parte essa coluna. A ideia é falar sobre estilo de vida: sono, alimentação, movimento, emoções, sol e ar livre. Conversar sobre hábitos que fazem parte da vida de todos nós, mas que nem sempre receberam a atenção científica que merecem. Afinal, o interesse em pesquisar uma pergunta também depende de quem está disposto a pagar para conhecer a resposta. E nem tudo que pode melhorar nossa vida oferece a alguém a perspectiva de um grande retorno financeiro.
Um exemplo é a fotobiologia, o estudo de como a luz age no nosso organismo, acertando nosso relógio biológico e interferindo no sono, humor e metabolismo. Os mecanismos da luz são cada vez mais descritos em laboratório, mas os grandes ensaios clínicos ainda são poucos. Isso não autoriza descartar o tema.
É preciso trabalhar com ciência, experiência clínica e com a honestidade de dizer “ainda não se sabe” quando for o caso. Sem transformar a falta de estudos em uma sentença de inutilidade, nem uma ideia promissora em promessa de resultado.
Evidências são importantes, porém é preciso saber ler o que elas dizem e também o que elas ainda não tiveram a chance de dizer.
Você está convidado a explorar esse caminho. Porque o que buscamos, no fim das contas, é viver melhor. E isso merece tanto rigor para avaliar as respostas quanto liberdade para fazer as perguntas.
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Alexandre Feldman é médico há quase 40 anos (CRM-SP 59046), autor de livros sobre enxaqueca e criador do site enxaqueca.com.br. Integra o estilo de vida ao tratamento das doenças
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