Mensagens mostram conversas entre o deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) e o governador Mateus Simões (PSD) entre agosto e outubro de 2024. No período, uma empresa buscava um contrato de gestão de empréstimos consignados com o governo de Minas Gerais. Simões, que era vice-governador à época, afirma que o parlamentar ofereceu R$ 10 milhões para viabilizar o negócio em um encontro posterior. Euclydes, porém, nega.
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Os registros não contêm ofertas de vantagem indevida. No entanto, as conversas mostram contatos de um representante do sistema com Simões, além de cobranças de Euclydes por respostas e tentativas de agendar encontros. Os diálogos foram divulgados pelo jornal Estado de Minas
Simões fez a acusação durante debate na TV Globo, na terça-feira 29. “Em todo o meu tempo de vida pública, uma única pessoa me ofereceu propina, e o Euclydes Pettersen tentou me oferecer R$ 10 milhões, no meio de um casamento, para que eu pudesse facilitar um contrato para ele”, declarou.
Início das tratativas
Um documento de Simões situa o início das conversas em julho de 2024. Segundo o relato, Euclydes pediu que ele recebesse um amigo com soluções tecnológicas. O vice-governador não recebeu os fornecedores, mas prometeu encaminhar as informações à equipe técnica.
Em 31 de julho, Saulo de Tasso Dino procurou Simões. “Boa tarde, Dr. Matheus. Me chamo Saulo Dino e estou entrando em contato para falar sobre o nosso sistema de Gestão dos Consignados. Qual seria o melhor horário para falarmos?”, escreveu.
Saulo é sócio da Safe Consig Tecnologia da Informação. A Polícia Federal investigou a empresa por tráfico de influência envolvendo Roberta Luchsinger e Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A firma fornecia a plataforma dos Correios, mas a atual gestão suspendeu o contrato.
Em 6 de agosto, Simões informou que encaminharia o assunto à Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag). Saulo citou a atuação da empresa nos Correios, no governo do Ceará e nas prefeituras de Fortaleza e Maceió.
Cobranças e pedidos de encontro
Em 28 de agosto, Euclydes perguntou se Simões estaria em Belo Horizonte no dia seguinte. Ao saber que ele viajaria para Cuiabá, disse que também iria à cidade e sugeriu um encontro. Dois dias depois, ambos conversaram por telefone durante três minutos.
Em 4 de setembro, o deputado perguntou: “Como que faz pra gente encontrar rapidão?”. Simões informou que seguiria para São Paulo e propôs resolver o assunto à distância. “Teria que ser pessoalmente”, respondeu Euclydes.
Nos dias 10 e 11, o parlamentar citou uma apresentação técnica e cobrou providências. Simões disse que pediria retorno à equipe. “Quero te ajudar, vamos encontrar pra organizar o mais rápido possível!”, escreveu Euclydes. Depois, acrescentou: “Vou ficar te devendo essa gentileza”.
Governo descartou troca de contrato
Em 16 de outubro, o deputado voltou a perguntar sobre o processo. Simões informou que a equipe recebera os representantes, mas descartou substituir o contrato da Prodemge no curto prazo. Segundo ele, “valor e processo estão hoje dentro do esperado”.
A acusação de propina se refere a um encontro posterior. As apurações citadas situam o episódio em 23 de novembro de 2024, no casamento do deputado estadual Doorgal Andrada, em Trancoso, Porto Seguro (BA).
Acusação de oferta de R$ 10 milhões
Simões relata que Euclydes retomou o assunto e ouviu que o Estado manteria o serviço da Prodemge. Segundo o governador, o deputado vinculou o contrato às eleições de 2026. Teria prometido retirar Cleitinho Azevedo (Republicanos) da disputa pelo governo e oferecido R$ 10 milhões, com possibilidade de pagamento anual.
“Aí ele disparou: ‘Eu consigo te passar 10 milhões se resolver isso'", narrou Simões. "Eu me assustei com a conversa e disse: ‘Você não me conhece, deputado. Só me dá licença porque isso deve ser o álcool falando em você.’ Ele insistiu: ‘Eu não bebo. Estou falando sério. Pode ser 10 milhões por ano, o contrato aguenta.’ A essa altura, eu já tinha ficado tão transtornado que disse a ele que iria embora para não chamar a polícia no meio de um casamento.”
O governador afirma que relatou o episódio ao controlador-geral do Estado, Rodrigo Fontenelle, em dezembro de 2024, durante almoço com o secretário-geral, Marcel Beghini. O grupo considerou uma representação policial, mas desistiu.
Euclydes nega e promete ação judicial
“As gravíssimas acusações feitas pelo candidato Mateus são falsas e inverídicas. Essa conversa nunca aconteceu”, declarou a assessoria de Euclydes.
O deputado questionou por que Simões não procurou imediatamente as autoridades. Também afirmou que a referência à Controladoria-Geral do Estado surge no período eleitoral para sustentar a acusação.
“Se isso tivesse ocorrido, ele, como servidor público, tinha o dever de agir imediatamente com os rigores da lei, sob pena de ter praticado o crime de prevaricação”, argumentou. Euclydes pediu comprovantes de denúncia formal e anunciou ações por danos morais, calúnia e difamação.
Divergência sobre a indicação da empresa
Euclydes admitiu que indicou um contato, mas atribuiu a iniciativa a Simões. “Pelo que me recordo, houve, sim, uma ocasião em que esse Mateus me pediu para que eu buscasse contato de alguém ou alguma empresa para determinada finalidade”, afirmou.
O parlamentar disse que buscou alguém que pudesse fornecer o contato e o repassou. Negou participação nas conversas seguintes: “O que ele fez com esse contato eu não sei, pois a tratativa foi dele com o empresário”.
Negociações eleitorais
Euclydes afirma que Simões lhe ofereceu a vaga de vice para retirar Cleitinho da disputa. “A única negociação que o governador por ocasião me propôs foi ser seu vice para retirar o futuro governador Cleitinho, e eu não aceitei”, declarou.
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Simões relata outra cobrança em fevereiro de 2025, depois de uma reunião com os dois políticos. Segundo ele, Euclydes disse, sem testemunhas: “Tem de resolver aquele assunto do registro de consignados para avançar com essa conversa de eleição”. O governador afirma que encerrou o diálogo e informou sua equipe. A assessora Celise Laviola teria recebido cobrança semelhante.
Em junho de 2025, Simões encontrou Cleitinho em Brasília, relatou o episódio e avisou que não conversaria mais com Euclydes. As negociações entre os partidos continuaram.
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