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Juiz propõe venda de participações do Banco Santos ao Master em reunião com herdeiros

Juiz propõe venda de participações do Banco Santos ao Master em reunião com herdeiros

Brasil Estado | 12/08/2026 às 20:00 | há 2 meses | 6 min de leitura

O juiz Paulo Furtado de Oliveira Filho, da 2ª Vara de Falências de São Paulo, incentivou os filhos do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira a negociar com o Banco Master as participações que integravam o espólio do antigo controlador do Banco Santos. Durante a conversa, revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo, o magistrado também criticou os advogados da família, sugeriu outros profissionais e falou na possibilidade de um “acordão” para encerrar a falência e as disputas judiciais envolvendo os herdeiros.

Sem a presença de advogados, Rodrigo, Eduardo e Leonardo, filhos de Edemar, reuniram-se com Paulo Furtado no gabinete do magistrado em 22 de agosto de 2024. A conversa ocorreu cerca de oito meses depois da morte do ex-banqueiro, durou 45 minutos e foi gravada.

O encontro tratou de uma possível solução para encerrar a falência do Banco Santos, processo que tramita há cerca de duas décadas na Justiça paulista. A instituição teve a liquidação extrajudicial decretada em 2004 e a falência decretada em 2005, deixando cerca de R$ 3 bilhões em dívidas. Desde então, bens de Edemar, incluindo uma mansão e uma extensa coleção de obras de arte, foram leiloados para ajudar no pagamento dos credores. O ex-banqueiro chegou a ser preso duas vezes e, posteriormente, conseguiu anular processos judiciais. Ele morreu em janeiro de 2024.

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A condução da falência passou a ser questionada pelos filhos de Edemar no Conselho Nacional de Justiça (CNJ). Os herdeiros denunciaram supostas irregularidades atribuídas a Paulo Furtado e Vânio Aguiar, administrador judicial da massa falida. O CNJ determinou o afastamento de Vânio, suspendeu o processo de falência e pediu esclarecimentos ao magistrado. Procurado, Vânio não se manifestou.

Banco Santos e Banco Master

Na época da reunião, o Master ainda não estava no centro do escândalo que posteriormente atingiria a instituição. Ativos da massa falida do Banco Santos, entre eles a carteira de investimentos, despertavam o interesse de instituições financeiras e fundos especializados em ativos de maior risco. O BTG Pactual estava entre os interessados.

Também havia advogados especializados nesse mercado em conversas com fundos ligados ao Master sobre um possível investimento em ativos do Banco Santos. A aproximação, contudo, não começara naquele momento. Anos antes, Edemar chegou a conversar com Daniel Vorcaro, então controlador do Master, mas as tratativas não avançaram.

https://www.youtube.com/watch?v=B_4--qi-xBQ

O encontro entre Paulo Furtado e os três filhos de Edemar foi articulado pelo administrador judicial Fernando Borges. Logo no início da reunião, o juiz afirmou que Borges o havia procurado por acreditar que poderia ajudar em uma aproximação. Também disse que o administrador havia levado investidores que já tinham conversado com a família sobre a compra de participações no Banco Santos.

Segundo o Estadão, não consta no processo de falência procuração concedida a Borges pelos herdeiros ou pelos investidores para representá-los no caso. Procurado pelo jornal, ele não se manifestou.

A reunião

Ao longo da reunião, Paulo Furtado apresentou uma negociação com o Master como possível caminho para encerrar a falência. O assunto surgiu quando Leonardo, filho mais novo de Edemar, perguntou qual seria a melhor alternativa para o “encerramento total” do processo.

“Olhando essa proposta do Master, porque, como eles estão interessados em comprar o controle — e o controle, na verdade, tecnicamente, era do pai de vocês e hoje é do espólio —, é um negócio privado”, disse o juiz. “Então, ninguém tem nada a ver com isso.”

A conversa avançou para as ações de responsabilidade relacionadas à falência do Banco Santos. Esses processos buscam apurar eventual responsabilidade de sócios e administradores por prejuízos causados à empresa falida e podem resultar, entre outras medidas, no bloqueio de patrimônio. Edemar e seus filhos foram alvos de ações desse tipo, que alcançaram recursos no exterior atribuídos ao ex-banqueiro.

Na sequência, o magistrado afirmou que esse caminho poderia encerrar as disputas dentro e fora do processo. Leonardo perguntou, então, se a solução seria um “acordão”. “Seria um acordão, mas vocês sairiam do processo”, respondeu o juiz.

Juiz criticou defesa dos herdeiros

Outro ponto da reunião foi a atuação dos advogados que representavam o espólio de Edemar. Paulo Furtado criticou petições apresentadas pelo ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão e por Willer Tomaz. Os dois haviam questionado aspectos da condução da falência e, posteriormente, denunciaram o magistrado e Vânio Aguiar ao CNJ.

Ao comentar as contestações, Paulo Furtado defendeu a contratação da mulher de Vânio para prestar serviços advocatícios à massa falida, um dos pontos questionados pela defesa dos herdeiros. O juiz afirmou que não havia proibição para a contratação e afirmou que algumas alegações apresentadas pelos advogados retomavam questões já decididas.

Na mesma conversa, o magistrado sugeriu profissionais que poderiam assessorar os filhos de Edemar. Entre os nomes mencionados estavam Eduardo Munhoz, Marcelo Adamek e Francisco Satiro. Paulo Furtado comentou a experiência dos advogados e possíveis conflitos de interesse que poderiam impedir a atuação de alguns deles. Segundo o Estadão, nenhum dos três foi contratado pela família ou atuou no processo de falência do Banco Santos.

https://www.youtube.com/watch?v=q37icmSu_OQ

Ao explicar as sugestões, o juiz afirmou que os herdeiros precisavam de alguém que examinasse detalhadamente as alternativas disponíveis e as consequências econômicas de uma eventual negociação.

Caso ocorre em meio às investigações sobre o Master

A divulgação da gravação ocorre em meio às investigações sobre possíveis irregularidades envolvendo o Banco Master e seu ex-controlador, Daniel Vorcaro.

Em depoimento à Polícia Federal (PF), o diretor de Fiscalização do Banco Central (BC), Ailton de Aquino, relatou “vazamentos sistemáticos” de informações internas relacionadas ao Master. Segundo ele, o ambiente de desconfiança levou a cúpula da autoridade monetária a restringir o número de pessoas com conhecimento sobre decisões envolvendo a instituição.

Aquino também afirmou à PF que manteve sob sigilo a decisão de liquidar o Master, em novembro de 2025. Segundo o diretor, ele e o presidente do BC, Gabriel Galípolo, limitaram o acesso à informação por receio de novos vazamentos.

O diretor relatou ainda que dois servidores do BC mantinham contatos com pessoas ligadas a Vorcaro. Os funcionários confirmaram negócios com integrantes do entorno do banqueiro, mas negaram irregularidades.

Leia também: "Os tentáculos do Master", reportagem de Uiliam Grizafis publicada na Edição 325 da Revista Oeste

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