Há uma cena recorrente nos filmes de George Romero. O sobrevivente, ingênuo, aproxima-se do vizinho cambaleante esperando dele algum gesto de reconhecimento humano. Recebe, em troca, uma dentada na jugular. O cidadão brasileiro que esperava do Conselho Superior do Ministério Público Federal (MPF) alguma reação diante do caso Gonet cometeu o mesmo erro de cálculo.
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Recapitulemos. Em abril de 2024, o procurador-geral da República foi fotografado em Londres, entre charutos e copos de uísque, confraternizando com Daniel Vorcaro, o banqueiro hoje no centro do escândalo do Banco Master. Mais tarde, quando um relatório da Polícia Federal (PF) mencionou seu nome, o próprio Gonet pediu a nulidade do documento. Juiz e parte, fiscal e fiscalizado: mais um pequeno milagre de ubiquidade processual, tão típico da República luloalexandrina...
Nesta sexta-feira, o Conselho decidiu, por unanimidade, mantê-lo nos processos. Quanto a investigá-lo, o placar empatou em 4 a 4, e o voto de minerva em favor da impunidade coube a ninguém menos que Nicolao Dino, irmão de Flávio Dino, o Camarada Rocambole. Existem famílias que partilham, além do sobrenome, também o senso de oportunidade. Pois o argumento de Nicolau honrou a família, consistindo numa peça retórica de antologia: ninguém poderia exigir do PGR um “juízo de premonição”. Era só amizade. Era só saudade.
Mas convenhamos que o problema não é Gonet. É o corpo do qual ele é órgão. A Nova República, chafurdada numa poça de uísque e fumaça de charuto, acarinhada por prostitutas fantasiadas, tornou-se um zumbi institucional: um cadáver que conserva os movimentos da vida (sessões, votos, notas técnicas, citações da Lei Complementar 75) mas do qual a alma há muito se retirou. Não delibera, não julga. Apenas mastiga. E digere. Seu único impulso remanescente é continuar sugando o sangue e devorando os cérebros dos cidadãos desavisados.
Esperar que instituições em metástase extirpem as próprias células cancerígenas é pedir ao tumor que se opere. O câncer não se autodenuncia; ele se autoprotege. E o faz, como vimos, com placar apertado que aparente normalidade procedimental, fundamentação erudita e a serenidade de quem sabe que a conta (do uísque, dos charutos e da República) será paga, como sempre, por outro.
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