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Brasileiro cruza o Atlântico a remo sozinho e repete rota de Amyr Klink

Brasileiro cruza o Atlântico a remo sozinho e repete rota de Amyr Klink

Brasil Estado | 09/10/2026 às 13:30 | há 5 dias | 7 min de leitura

Todos os dias, depois de remar a primeira parte da jornada, Raphael Garcia seguia a mesma ordem dentro da cabine. Checava o GPS para ver quanto tinha avançado, almoçava por cerca de meia hora e dormia uma hora. Num desses dias, antes de deitar, voltou ao GPS sem motivo. Um navio vinha na mesma rota, a uns 4 metros da linha do barco a remo, pelos cálculos dele. Embarcações desse porte, segundo Garcia, têm cerca de 50 metros de largura e não enxergam um barco a remo a olho nu. Ele ligou para a tripulação, que desviou. “Se eu tivesse ido dormir diretamente, que era o que eu fazia antes, provavelmente não estaria aqui.”

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Garcia não tem religião. Muita gente pergunta se ele viu Deus no mar, e a resposta é não. Para o episódio do navio, porém, ele fala em “inspiração divina” e não fecha a questão: “Nunca se sabe, né?”.

Em 22 de agosto, depois de 136 dias sozinho no Atlântico Sul, o paulistano atracou na Bahia Marina, em Salvador, a bordo do Sater, batizado em homenagem ao cantor Almir Sater. Tinha partido em 8 de abril de Lüderitz, na Namíbia, a mesma cidade de onde Amyr Klink saiu em 1984 para a travessia que virou o livro Cem Dias entre Céu e Mar. Klink o esperava no píer, o que lhe foi uma honra.

Garcia pagou tudo com o próprio dinheiro, não procurou patrocinador e passou os quatro anos de preparação longe da imprensa, pois a repercussão não era o foco. Para ele, o que decide uma viagem dessas acontece em terra. “Eu acho que a dificuldade não é nem remar", diz. "Ela é você fazer um projeto robusto para, quando estiver no mar, ter habilidade de contornar os problemas que aparecem.”

Um sebo em Foz do Iguaçu

Garcia tinha 30 anos quando achou o livro de Klink num sebo, durante uma visita a Foz do Iguaçu, em 2022. Não sabia que era possível atravessar um oceano a remo. Pesquisou quem tinha repetido a rota de Lüderitz à Bahia e não encontrou ninguém. “Eu me perguntei: bom, por que eu não tento fazer?”

Não decidiu na hora. Escreveu um documento que dividia o projeto em frentes, como a marinharia e a técnica do remo, e se deu alguns meses de estudo antes de se comprometer. “É muito fácil você desistir depois, porque vêm os problemas", diz. "O projeto acaba levando muito mais tempo, é muito mais caro.” A decisão veio entre novembro e dezembro daquele ano."

Ele não sabia remar. Procurou clubes de remo, não deu certo, e comprou um barco costeiro próprio. Fez um curso de vela para ver como o corpo reagia ao mar e depois viagens costeiras e em mar aberto (offshore). Em abril de 2023, começou a desenhar o barco à distância com um arquiteto naval na Inglaterra. O projeto ficou pronto no fim daquele ano, e a construção começou em 2024. Fornecedores que prometiam entregar em três ou quatro meses levaram quase um ano. Garcia calcula que, sem os atrasos, teria partido em dois anos.

Ele estudou engenharia elétrica, segundo conta, na mesma universidade em que Klink se formou em economia, perto de onde o navegador remava. “Na faculdade de engenharia você basicamente passa a graduação inteira resolvendo problemas. E é o que é esse projeto.”

Só com o desenho pronto, no fim de 2023, Garcia procurou Klink. Ligou da Nova Zelândia, onde morava na época, e os dois conversaram quase uma hora. Klink já não lembrava alguns detalhes da viagem feita quase 40 anos antes, mas deu conselhos. Um deles foi instalar uma borda de madeira ao redor do barco, para o tripulante se apoiar ao se deslocar a bordo. Garcia diz que a peça se revelou crucial, porque quem não consegue andar pelo barco deixa de fazer muita coisa.

https://www.youtube.com/watch?v=8afAn3mG8bI

Queria ter partido em 2024 ou 2025. Os atrasos fizeram a chegada coincidir com a divulgação de 100 Dias, filme de Carlos Saldanha sobre a travessia de Klink, que estreia em 29 de outubro. “Acho que de alguma forma a gente acabou se ajudando.”

Um mês preso em Lüderitz

Lüderitz é uma cidade portuária de menos de 20 mil habitantes no deserto da Namíbia. A partida, como tinha sido para Klink, segundo Garcia, emperrou na burocracia. Imigração e alfândega provavelmente não viam um barco a remo daquele porte havia anos e não sabiam como enquadrá-lo. Os formulários pediam o tipo de embarcação, e o Sater não tinha vela nem motor. Garcia levou cerca de um mês para obter a autorização e partiu praticamente no mesmo dia em que ela saiu.

No começo do projeto, ele comparava cada solução com as de Klink. “Em determinado momento eu percebi que eu tinha que fazer o meu projeto.” A água é o exemplo. Em 1984, sem dessalinizador, Klink levou toda a água da viagem, e o peso dela no fundo do barco servia de lastro que ele podia bombear entre compartimentos. O dessalinizador de Garcia pesa de 20 a 25 quilos. Com menos peso embaixo, ele precisava ser mais cauteloso para não capotar.

Tempestades na saída

Garcia projetava 105 dias de mar, mais que os 100 de Klink, e diz nunca ter tido meta de tempo. Levou 136. Atribui a diferença às tempestades que pegou ao deixar a Corrente de Benguela, que sobe pela costa sudoeste da África, e a uma temporada ruim. “Quanto mais você pega tempestade, mais você demora, e acaba ficando preso em outras tempestades.”

A rotina a bordo dependia do tempo. Na maioria dos dias, vento e ondas balançavam tanto o barco que tarefas como juntar o lixo ou redistribuir a carga só cabiam em um ou dois dias da semana. A água vinha do dessalinizador, acionado quase todo dia, e a comida era desidratada. “Você está sempre úmido, por mais que tente tomar banho.” Nas tempestades, ficava trancado na cabine por cinco dias, às vezes uma semana. Para esses períodos, levou seis livros. Os que mais gostou foram Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez, que, descobriu depois, Klink também tinha levado em 1984, e Kon-Tiki, o relato do norueguês Thor Heyerdahl sobre a travessia do Pacífico numa jangada, em 1947.

A GoPro que caiu no mar

Garcia esperava ver poucos animais. Viu muitos, e de perto. Tubarões e baleias chegavam a centímetros do barco para inspecioná-lo. “Você está num barco a remo, extremamente devagar, vulnerável, e você tem uma baleia do seu lado.” Filmou boa parte desses encontros e começou a pensar numa exposição ou num documentário. Então deixou a GoPro cair no mar. Tinha uma segunda câmera, mas a maior parte das imagens de animais se perdeu. Depois disso, os bichos rarearam, porque se concentravam no trecho entre Lüderitz e a ilha de Santa Helena.

Garcia diz que, sem o livro de Klink, não teria feito a viagem. Agora escreve o próprio e quer publicá-lo até meados de 2027, se conseguir. Não tinha Instagram até um primo criar a conta por ele. Já recebeu convites para palestras e pensa em transformar isso numa carreira paralela. Este ano e o próximo são para descansar. A expedição seguinte pode ser num veleiro pequeno ou na Amazônia, ele ainda não sabe. Tem certeza apenas de que precisa ser maior do que a última. “Se eu fizer algo menor, isso pessoalmente não vai me satisfazer.”

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