As declarações do presidente Lula sobre o celibato sacerdotal e a ordenação de mulheres na Igreja Católica provocaram reações de bispos, neste sábado, 19.
Entre os religiosos que se manifestaram estão Dom Devair Araújo da Fonseca, bispo de Piracicaba (SP), e Dom Adair José Guimarães, bispo de Formosa (GO). Os dois divulgaram vídeos em resposta às declarações do presidente.
A fala de Lula ocorreu na última quarta-feira, 16, durante um encontro com lideranças evangélicas brasileiras e norte-americanas no Palácio do Planalto.
Na ocasião, o presidente relacionou a expansão das igrejas evangélicas no Brasil ao espaço concedido às mulheres e criticou regras da Igreja Católica.
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Lula disse que chegou a conversar sobre o assunto com o então papa Francisco.
Conforme o presidente, enquanto a Igreja Católica não acabar com o celibato e não permitir que mulheres se tornem padres e bispos, a instituição continuará enfrentando dificuldades.
Lula sustentou que as mulheres seriam tratadas em condições de maior igualdade nas igrejas evangélicas e associou essa característica ao crescimento dessas denominações.
"Conheço o trabalho da Igreja Católica", iniciou o petista. "Falei pro papa Francisco que, enquanto a Igreja Católica não acabar com celibato e permitir que mulheres possam ser bispos epadres, a gente vai ver Igreja Católica passando dificuldade. Essa é uma vantagem que a igreja evangélica tem. Mulheres são tratadas em igualdade de condições. Isso faz com que tenha crescido tanto no Brasil."
Bispos contestam declarações de Lula
Em reação, Dom Devair Araújo da Fonseca contestou a análise feita por Lula e lembrou que questões relacionadas à organização e à doutrina da Igreja Católica não cabem ao presidente da República.
Bispo de Piracicaba desde 2021, Dom Devair foi nomeado para o episcopado pelo próprio papa Francisco, citado por Lula em sua declaração.
"Estamos vendo políticos que tentam dizer o que a igreja precisa fazer", disse Dom Devair. "Falam até de celibato, quando deviam cuidar do país, e estão cuidando muito mal. Na Igreja de Cristo, o diabo não põe a pata. Fomos chamados a ter consciência na hora de apertar os números na urna."
No vídeo divulgado depois da fala do presidente, o religioso declarou que, mesmo quem não tem vontade, vote como um "ato de sacrifício e penitência".
"Cristãos que fecharem os olhos para isso vão pagar a conta", avisou o sacerdote. "Não escolham quem quer acabar com a nossa liberdade."
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Dom Adair José Guimarães, bispo de Formosa, também reagiu. Em sua manifestação, o religioso defendeu a autonomia da Igreja Católica para estabelecer suas normas e ensinamentos e criticou Lula por opinar sobre o celibato e o sacerdócio.
"Essa declaração do presidente Lula não me assusta", ressaltou Dom Adair. "Geralmente os líderes, quando são apedeutas, querem se meter em tudo. A Igreja Católica não é para todos compreenderem. É uma instituição de direito divino, com mais de dois mil anos, com sua riquíssima tradição, seu magistério, sua sagrada escritura. O mandatário da nação precisa cuidar da nação, não dar pitacos sobre a igreja."
Dom Adair lembrou a fala de Lula em 2005, durante seu primeiro mandato. Na ocasião, Lula havia dito que era "católico apostólico romano".
No vídeo publicado neste sábado, Dom Adair fez referência à resposta do cardeal Eusébio Oscar Scheid a Lula. "Cardeal Scheid foi indagado por um repórter sobre essa confissão de fé de Lula, feita em abril de 2005", exemplificou. "Como resposta, o cardeal disse que o presidente é 'caótico apostático e romântico'. Fico com essa mesma consideração do nosso velho cardeal já falecido acerca disso."
Dom Adair estava em Roma no momento em que publicou o vídeo. Ele acrescentou que daria mais notícias sobre a peregrinação do grupo de sacerdotes.
Segundo o bispo, a presença muçulmana no aeroporto de Roma é "expressiva", já que o próximo destino do bispo seria a Turquia, país do Oriente Médio. Lá, de acordo com Dom Adair, 95% da população é de "confissão muçulmana".
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As manifestações dos dois bispos ocorrem em meio a uma reação mais ampla à declaração do petista.
Nesta sexta-feira 18, a Frente Parlamentar Católica da Câmara dos Deputados divulgou nota de repúdio e pediu que Lula respeite a autonomia das comunidades religiosas para definir suas próprias convicções.
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O episódio ocorreu a pouco mais de duas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais.
Lula fez as declarações durante uma reunião com representantes da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, na qual também falou sobre a relação de seu governo com as igrejas e sobre políticas públicas que pretende desenvolver com a participação de instituições religiosas.
Em nota divulgada pelo presidente do grupo parlamentar, deputado Luiz Gastão (PSD-CE), a frente defende o celibato sacerdotal e pede que Lula respeite a "legítima autonomia das comunidades de fé para definir suas convicções".
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