quarta-feira, 14 de outubro de 2026 Transmissão 24h
INÍCIO
Autoridade mundial em resolução de conflitos define sessão do STF como ‘show de horrores’

Autoridade mundial em resolução de conflitos define sessão do STF como ‘show de horrores’

Brasil Estado | 17/09/2026 às 06:30 | há 3 semanas | 7 min de leitura

A última sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal (STF), na última terça-feira, 15, causou impacto em uma das principais autoridades em negociação de conflitos no mundo. Autor de 32 livros, Yann Duzert, 54 anos, franco-brasileiro, é professor internacional, PhD pela École Normale Supérieure de Paris e pós-doutor pelo Harvard–MIT Public Disputes Program.

Ele criou a metodologia Newgotiation, para negociação e inteligência artificial aplicada à resolução de conflitos. Com longa atuação no Brasil, realizou capacitações, em 2020, para o Conselho Nacional de Justiça e para o Conselho Nacional do Ministério Público.

+ Leia mais notícias de Política em Oeste

Mesmo conhecendo de perto as dificuldades das instituições brasileiras em equilibrar conflitos de interesse, as trocas de ofensas da última terça-feira e a falta de um entendimento para a conclusão do processo o deixaram impactado.

https://www.youtube.com/watch?v=IxXtzNOnrVI

"Eu acompanhei esse episódio com grande preocupação, não apenas como professor de negociação e mediador de conflitos, mas como alguém que acredita que a qualidade da democracia depende da qualidade de suas instituições", afirmou ele a Oeste.

Atualmente morando na Espanha, de onde tem acompanhado as movimentações da política no Brasil, ele admitiu que aquelas horas podem ser comparadas a um “show de horrores”, se for levada em conta a sequência dos acontecimentos.

"Eu utilizaria essa expressão como uma crítica à qualidade do processo deliberativo observado, e não como um julgamento antecipado sobre a responsabilidade jurídica de qualquer ministro", observou. "Uma sessão do Supremo não deveria ser confundida com uma disputa pessoal. O STF exerce uma função constitucional essencial. Sua autoridade não decorre da ausência de divergências, mas da capacidade de enfrentá-las por meio de procedimentos legítimos e decisões fundamentadas."

Segundo Duzert, a sessão de 15 de setembro foi particularmente reveladora. O principal objetivo da sessão, que era examinar questões jurídicas relacionadas ao relatório da Polícia Federal sobre o caso Banco Master e discutir os procedimentos aplicáveis à eventual investigação de um de seus próprios integrantes, foi ofuscado pelas discussões, segundo ele.

"A sessão também foi marcada por confrontos pessoais e divergências sobre a própria condução do julgamento." Ele só destacou a postura assertiva da ministra Cármen Lúcia, que se disse envergonhada por todo aquele embróglio, e definiu a fala da magistrada como "especialmente significativa."

Do ponto de vista da mediação, ele considera foram expostos cinco problemas fundamentais presentes na condução da sessão. O primeiro deles, foi a confusão entre o problema jurídico e o conflito pessoal.

"A questão central deveria ser determinar quais procedimentos são juridicamente adequados, quais provas podem ser consideradas e quais garantias devem ser respeitadas", ressaltou o especialista.

"Quando a discussão passa a envolver acusações sobre as intenções, a lealdade ou a dignidade dos participantes, surge um outro conflito, de natureza relacional, que pode dificultar a resolução do primeiro. É exatamente isso que procuramos evitar na metodologia Newgotiation."

Além disso, como segundo item ausente, faltou, para Duzert, um procedimento suficientemente compartilhado. "Os ministros divergiram sobre a condução processual, a atuação da presidência do tribunal e a conveniência de examinar conjuntamente os casos de Alexandre de Moraes e André Mendonça."

Ele citou como exemplo o questionamento do ministro Flávio Dino em relação ao procedimento adotado. Lembrou que, enquanto isso, o ministro Edson Fachin apresentava sua interpretação sobre as competências da presidência e o encaminhamento dos autos ao plenário.

"Quando os participantes não compartilham uma compreensão clara das regras do processo decisório, o próprio procedimento se transforma em objeto de disputa", declarou, ressaltando a necessidade de que este tipo de reunião tenha uma diretriz.

"Em negociação, chamamos atenção para a importância de estabelecer previamente regras, critérios e etapa, o que não elimina divergências jurídicas legítimas, mas pode ajudar a organizar sua discussão."

Outro ponto, ressaltado por ele, foi a deterioração da relação e da confiança. "Uma instituição colegiada precisa conviver com discordâncias", afirmou o professor. "Os ministros não precisam concordar entre si, nem manter relações pessoais de amizade. Precisam, porém, preservar condições de respeito institucional que permitam examinar os argumentos de cada um."

Quando a discussão passa a ser dominada por acusações recíprocas, na visão de Duzert, torna-se mais difícil separar a avaliação dos fatos da defesa da própria reputação. "É uma dinâmica conhecida na mediação de conflitos: quanto mais o confronto se personaliza, mais difícil pode se tornar encontrar uma solução para a questão original."

O problema central dos conflitos de interesses, entra, nesta avaliação, como o quarto ponto. "Esse é o ponto central do nosso livro Conflito de Interesses e Serum Anticorrupção", disse, sobre a recém-lançada obra dele, feita em parceria com as autoras Monica Simionato e Denise Leal.

"Quando uma instituição precisa deliberar sobre situações que envolvem seus próprios integrantes, a prevenção e a administração dos conflitos de interesses tornam-se especialmente relevantes."

Segundo ele, não basta perguntar se cada ministro acredita estar agindo corretamente. Os mecanismos de controle é que devem prevalecer. "É necessário examinar as regras de impedimento e suspeição, as competências institucionais, os procedimentos de apuração e as garantias de imparcialidade."

Mecanismos para controlar o conflito de interesses no STF

O fato de o ministro Dias Toffoli ter declarado suspeição e não participado da votação e o de seu colega Kássio Nunes Marques ter se declarado impedido, devem ser vistos, segundo ele, como soluções adequadas para o momento e não "como decisões processuais que devem ser distinguidas de qualquer conclusão sobre responsabilidade por irregularidades."

"A questão fundamental é construir mecanismos que protejam simultaneamente a independência judicial, o devido processo legal e a confiança pública."

Leia mais: "'Pode ser imoral, mas não ilegal' é frase que não cabe no Judiciário"

A incapacidade de concluir a deliberação naquela sessão, que saiu sem um resultado concreto, foi o gran finale, o quinto elemento, na visão do professor. A interrupção do julgamento, depois de um pedido de vista de Flávio Dino, é um instrumento processual legítimo, complementa Duzert. Mas o contexto que o envolveu não contribuiu para a obtenção de uma solução justa e satisfatória.

Com isso, a controvérsia sobre a análise conjunta dos casos dos ministros Moraes e Mendonça permaneceu sem uma solução definitiva naquele momento. "O simples fato de um julgamento ser suspenso não constitui, por si só, uma falha institucional", destacou o especialista. "O que me preocupa é a combinação entre a ausência de uma decisão definitiva, as acusações pessoais e as divergências sobre as regras aplicáveis."

Para ele, o papel de um mediador poderia ajudar na prevenção de interrupções por algum tipo de interesse suspeito. Ele traria equilíbrio entre as partes jurídica, institucional e pessoal.

"A mediação não significa negociar a Constituição, relativizar a lei ou buscar um acordo para proteger colegas", ressaltou Duzert. "Pelo contrário: significa criar condições para que as regras sejam aplicadas com independência, transparência e respeito ao devido processo legal."

O post Autoridade mundial em resolução de conflitos define sessão do STF como ‘show de horrores’ apareceu primeiro em Revista Oeste.

Compartilhar: WhatsApp Twitter

Leia também